A Ampulheta do Tempo - Parte 2

Aqueles que ousarem desafiar as areias, pagarão por sua imprudência, as ruínas foram construídas pa

Por aracnes em 03/10/2015 às 09:10:00
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Conto escrito por Fernando Silva de Souza [ aracnes ], publicado originalmente aqui, em 11 de Maio de 2012.

Perdemos algumas horas sobre o corpo inerte de Frederick, até reestabelecer a coragem para seguir em frente. Agora somos nada mais do que dois inexperientes nessa jornada, a qual não podemos retornar. Eu sinto que Antony não será capaz de prosseguir em frente. Ele era sempre protegido por Frederick, e por mim em sua ausência, mesmo eu tendo minhas dificuldades.

Se tivéssemos ouvido aquele ancião, assim como Antony havia insistido, não estaríamos presos neste lugar cheio de armadilhas, onde uma delas custou a vida de meu irmão a longo prazo. Antony quase foi morto duas vezes, depois daquele momento. Eu não posso ver a expressão de seu rosto, mas percebo que sua atenção, antes quase perfeita, agora falha.

Apesar de falhas na minha memória, ainda lembro do que aconteceu naquele dia, era no começo deste deserto, em um pequeno vilarejo que vive em condições totalmente tribais. Antony, apesar de novo, conseguiu compreender aquele povo em seu dialeto estranho. Estava quente, já podíamos sentir a areia nos rostos, e as narinas secarem. Frederick estava buscando suprimentos para a viagem.

Agora em meio a essa trilha lameada, as palavras do ancião, vem a minha mente, como uma forte pancada. Ajoelho, colocando uma das mãos ao chão, e Antony pergunta o que está havendo, ele não consegue ver, não há iluminação. As palavras do ancião, saem da minha boca naquele momento, enquanto me ergo.

“Aqueles que ousarem desafiar as areias, pagarão por sua imprudência, as ruínas foram construídas para deter até os mais fortes deuses, para que o tempo não caia em suas mãos. Aqueles que entrarem terão seu destino selado, com a morte, não há retorno depois a entrada se fecha, a ampulheta começa a contar, e ao final da morte a porta se abre com, mais grãos de areia na ampulheta.”

Não chegamos em ruínas ainda, somente este labirinto que não parece ter fim. Armadilhas nos esperam a cada cem passos, já reparei isso. Já começo a pensar que não temos chance de encontrar este artefato, volto a caminhar guiando Antony, ele me pergunta o porquê daquelas palavras serem repetidas por mim naquele momento, apenas digo que não sei, as palavras surgiram em minha mente.

Essa lama, parece que nunca irá acabar, meus pés afundam cada vez mais, como será a próxima armadilha que nos aguarda? A nossa última tocha, extinguiu-se algumas horas depois da morte de Frederick. Já não ouço barulho de cordas ou mecanismo, próximo de nosso centésimo passo, o que será que nos espera? Antony parece apavorado. A lama já começa a chegar nos nossos quadris.

É estranho, muito estranho, nada acontece, somente a lama. Sinto as mãos de Antony sobre os meus ombros, trêmula. Ele parece estar com mais medo que o normal. Pergunto, o porquê daquilo, ele me responde que sentiu algo em suas pernas, algo que o prendeu um pouco. Não ligo muito para o que disse, respondo a ele.

Ele se espanta, posso sentir a tristeza nele. Talvez eu deveria ter respondido com um pouco mais de delicadeza. Mas não consigo pensar em sutilezas no momento, a minha maior preocupação é nossa sobrevivência. Logo sinto a mão dele subitamente desaparecer do meu ombro. Me assusto, não sei o que poderia ter acontecido, apenas escuto seus gritos, e logo já não escuto mais nada, além do seu debater na lama.

Me viro naquele momento, preocupado com a situação. O que poderia tê-lo sugado? Levo minha mão até onde o escuto debater-se, seguro sua mão com força e começo a puxá-lo. Sinto ele subir, logo escuto a voz dele novamente, gritando, dizendo que algo o puxava para dentro da lama. Digo a ele que irei tirá-lo dali, naquele momento sinto o puxão para baixo do meu irmão, escuto a carne rasgar e o osso quebrar, e ele para de gritar. Sinto a leveza em seu braço... Somente ele restou…

[ Parte 3 ]

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