A Ampulheta do Tempo - Parte 3

Os irmãos já se foram, os pais estão longe, a esperança é escassa...

Por aracnes em 03/10/2015 às 09:20:00
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Conto escrito por Fernando Silva de Souza [ aracnes ], publicado originalmente aqui, em 24 de Maio de 2012.

A perda de meus irmãos foi trágica. Queria ter como reverter tudo o que aconteceu, mas não posso. Não há homem capaz de revogar os fatos. O meu tempo já deve estar quase no fim, os grãos de areia já devem estar se esgotando. Ainda posso sentir a viscosidade do túmulo de Antony sobre minhas pernas, ainda seguro sua mão.

Algumas horas já se passaram, e eu estou só, sentindo a pele de meus pés aos poucos ser dilacerada por este chão espinhento. Os músculos das minhas pernas latejam, sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Por mais que eu tente prosseguir em frente, meu coração diz-me que pare. Queria me juntar a eles, mas sou tão covarde que não consigo me matar...

O suor impregna o meu corpo, o calor parece estar aumentando. Posso ouvir o barulho de algo deslizando sobre rochas ao longe, o que poderá ser? Não posso enxergar, a luz nunca entrou nos meus olhos... Lembro dos braços calorosos de minha mãe, acolhendo-me. Lembro-me dos uivos na floresta, em uma viagem com meu pai.

Meus pais, se eles estivessem vivos, jamais teriam deixado fazermos esta loucura... Loucura esta, em busca daquilo que poderia trazer-lhes de volta a vida. Pura tolice, agora percebo. E agora eles devem estar ralhando com meus irmãos por esta burrada. Já não tenho muita força para andar, creio que logo me juntarei a eles.

As minhas narinas ardem, com o cheiro de rocha sendo queimada. O que será isso? Estou cada vez mais próximo do barulho que desliza sobre as rochas. Já não tenho mais forças, caio sobre este chão pontiagudo. Sinto a minha pele quase ser arrancada, não grito, já não tenho forças para mover um músculo...

O calor aumenta, preciso descansar, somente um pouco... Não sei se acordarei, posso ser engolido por alguma armadilha... Armadilha? Faz algum tempo que não noto nenhuma. E já estou fraco de mais para resistir a alguma. Viro o meu corpo, com o pouco de força que me resta, se eu pudesse ver, estaria contemplando o que está acima de mim... Seria o céu? Eu queria que fosse.

Solto a mão de Antony, escuto o barulho de seu braço rolar sobre este áspero chão... Fecho os meus olhos, nenhum dos dedos de minha mão se mexem mais... Mãe, eu queria que estivesse aqui para me acolher em seus calorosos braços, Pai queria você aqui para me proteger dos temíveis lobos... Mas não posso contar com vocês há muito tempo...

Meus irmãos... Sinto por não poder retribuir o que fizeram por mim. Aos poucos os sons somem. Poucas sensações me restam. A minha narina ainda arde, e minhas costas parecem ser perfuradas... Respiro fundo, não posso morrer aqui, não mesmo. Eu queria pelo menos, me mover só mais um pouco... Respiro fundo, e reúno forças para virar o meu corpo... Coloco as minhas mãos no chão, e solto um urro desesperado.

Devo ser louco, arrastar-me por este chão áspero. Vou em direção aonde ouvi o barulho do braço de Antony rolar. Sinto uma inclinação... Posso descer por aqui... Preciso só de mais um pouco de força, só mais um pouco. O cheiro do meu sangue penetra pela ardência de minhas narinas. Minhas mãos já não possuem pele... A dor é intensa...

Me arrasto com a pouca força que me resta... Só mais um pouco... Só mais um pouco... Eu não posso parar agora... A inclinação aumenta... Eu me desequilibro, e começo a rolar... Após algum tempo, paro de sentir a dor. Finalmente paro de rolar. Minhas costas estão ao chão... Não sinto as minhas pernas, estou sem forças... Finalmente fecho os meus olhos... Irei morrer? Creio que sim, logo me juntarei a eles... Meus pensamentos se vão. Irei descansar finalmente…

[ Parte Final ]

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