A Ampulheta do Tempo - Parte Final

É sangue... Onde realmente estou? Não posso estar morto... mortos não sangram...

Por aracnes em 03/10/2015 às 09:30:00
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Conto escrito por Fernando Silva de Souza [ aracnes ], com colaboração de José Nilson [ lazarus ] e Agathe [ ag_ht ], publicado originalmente aqui, em 10 de Junho de 2012.

Levanto-me. Sinto a dor pelo meu corpo. Parece que agulhas entraram por todos os meus poros. Ouço um som agudo. Parece o tilintar do metal. O que será este outro barulho? Parecem marteladas. Estou numa forja? Não estou sozinho neste lugar? Alguém vive aqui? Não, deve ser só a minha imaginação. Não estou mais no mundo dos vivos. Se é assim, onde estão Frederick e Antony?

Tento clamar por eles, mas a minha voz não sai. Tento gritar mais uma vez. Algo sai da minha garganta. É quente, é líquido, e tem gosto de ferro. É sangue... Onde realmente estou? Não posso estar morto; mortos não sangram. Ainda estou nesse maldito labirinto! Ainda sinto o calor das línguas ferventes de rocha derretida. Queria ao menos evitar que isso tivesse acontecido.

Sou o último vivo. É meu dever ao menos tentar. Preciso alcançar o tesouro e redimir meus erros. Os meus músculos doem a cada tentativa de levantar. Após a sexta tentativa, vou ao chão. Meu rosto raspa neste chão áspero, e sinto o sangue escorrer novamente. Lágrimas saem dos meus olhos. Devo pedir perdão a eles. Não conseguirei mais levantar. O som continua a penetrar-me os ouvidos.

Agora, mais claramente, percebo que não era um martelo que ouvi. Era água resvalando em metal. Será que finalmente achei? Tenho que levantar. Não posso desperdiçar o sacrifício dos meus irmãos. Sinto a dor mais uma vez, ao tentar me levantar. É meu orgulho que me põe de pé. Mas orgulho de quê? Eu me sentiria humilhado se encontrasse meus irmãos no outro mundo e dissesse que morri tão perto.

Aguentando a dor, ponho-me de joelhos. E suportando mais dor ainda, engatinho até de onde vem o som. Bato com o meu ombro esquerdo em algo que parece um sustentáculo ou uma pilastra de pedra. Decido usar seu apoio para me levantar. Eu a abraço e puxo meu corpo para cima. Todo o meu peso agora está sobre ela. Deslizo a mão até o topo, e descubro que ela é baixa.

O som parece estar mais perto. Tateio o topo deste pequeno pilar. Minhas mãos se molham. Sinto metal gelado e molhado sob minha palma. Estranho não ter ferrugem. É um objeto do tamanho de um antebraço. É liso ao toque, e não há só metal. Em algumas partes é feito de vidro. Me ocorre uma sensação estranha. Meu corpo se esquenta. Não sinto mais dor. Me sinto renovado.

Ouço o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas das árvores. Consigo me manter de pé sem me apoiar. Sinto-me rejuvenescido. Ouço uma voz calma e serena. Ela está por todos os lados. Ela me iz: “Aquele que suportou o martírio do labirinto que já fez deuses sucumbirem e reis caírem perante seu orgulho, terá como recompensa a chance de reaver algo que perdeu.” Eu pergunto: “Como assim reaver algo que perdi?”.

A voz responde: “Todos aqueles que me buscam tem o direito de reviver um momento no passado. Você poderá escolher, quem sabe, voltar à sua infância e rever seus pais; ou ainda reviver aquela sensação única em sua vida. Mas preste atenção: só e somente um momento poderá ser refeito. Uma vez feita a escolha, não haverá retorno. Todos os outros momentos já vividos não poderão ser refeitos. O destino cuidará que eles aconteçam. E então, qual a sua escolha?

Me assusto. O que devo escolher? Será que posso confiar nessa voz? Ou será que é apenas mais uma armadilha desse maldito labirinto? Mas e se for verdade? Devo escolher entre meus pais e meus irmãos. Voltar a tempo de impedir o acidente de meus pais, ou ao momento em que decidimos entrar nesse lugar, e convencer Frederick e Antony a desistirem? Os abraços calorosos da minha mãe, e a voz protetora de meu pai. Ou meus irmãos e toda uma vida ao lado deles?

Depois de pesar minhas escolhas, me decido pela resposta. Penso em meus pais, e em tudo que eles me ensinaram. A família é o maior bem que temos. Acho que não posso condenar pai e mãe a viver sem seus filhos. Seria egoísmo de minha parte; então, respondo, esperando ter tomado a decisão certa, e que meus pais entendam: “Eu escolho meus irmãos.

[ FIM ]

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