A Ampulheta do Tempo

Chegamos até aqui, mas não sabíamos das consequências...

Por aracnes em 03/10/2015 às 09:00:00
Matéria Visualizada uma vez...

Conto escrito por Fernando Silva de Souza [ aracnes ], publicado originalmente aqui, em 05 de Maio de 2012.

Hoje completa a sexta noite sem descanso para mim, e meus amigos. Talvez se tivéssemos ouvido aquele ancião, hoje não estaríamos aqui. Hoje começo com o turno da guarda, já não sabendo quanto tempo falta...

Já não lembro exatamente os dias que passamos aqui, não vemos o sol, não vemos a lua. É o sexto dia que marcamos, de acordo com os horários que dormimos. E sabemos que se não acharmos logo aquele artefato, nunca mais sairemos deste lugar. E não podemos retornar, a entrada foi selada, já não sei quantas horas e distância percorremos neste imenso labirinto que parece não ter fim.

Eu e meus dois irmãos, Frederick e Antony, fomos muito impulsivos nesta jornada, e agora percebo, vendo-os dormir. Não sei quanto tempo mais esta tocha ira nos guiar, nossa madeira acabou a dois dias atrás, por sorte encontramos um 'acampamento' cheio de corpos, cuja lenha da fogueira estava praticamente intocada. Não sabemos o que aconteceu com eles, será que é assim que morreremos quando a hora chegar?

Frederick, está gravemente ferido, sua perna direita já está duas vezes maior que a outra perna, o sangue parado fica à mostra, fomos pegos de surpresa por um desabamento, que por pouco não soterrou a nós três. Ele coitado, o mais velho dentre nós e com inúmeras experiências de lugares inexplorados, foi pego. Acho que ele já sabe que cedo ou tarde irá morrer, só não quer demonstrar isso.

Antony, o mais novo dentre nós, é também o mais covarde, ele cansou de nos avisar e tentou nos impedir de entrar aqui. Se eu tivesse ouvido ele, neste momento estaríamos em casa, sorvendo de belos vinhos, e ouvindo boas músicas de piano, pelo menos eu, já que as músicas clássicas não os agradam. A sua respiração está mais calma que a de costume, finalmente ele deve ter parado de ter pesadelos.

Já eu, o mais incapaz dentre nós três, teimei em acompanhar Frederick, ele sabe como qualquer outro que conheci, que a falta da cor dos meus olhos me impede de ser igual a qualquer outro. Nunca consegui ver um sorriso no rosto de uma dama, e nem ao menos ver a morte de ninguém. Não sei o que são cores, não sei o que é enxergar, eu já nasci dessa forma.

Parece que já está amanhecendo, eles estão se espreguiçando. Antony me pergunta se está na hora de seu turno. Eu respondo calmamente a ele, que não, que já havia amanhecido, que não consegui descansar, minha mente ficou pensando no que poderia ocorrer dali para frente, e se aquele ancião estiver certo, pelos meus cálculos, devemos ter mais uns dois dias de vida neste lugar.

O lugar que nenhum homem ou Deus conseguiu chegar ao final. Onde todos são iguais, e a cada morte, mais grãos de areia são acrescentados ao que sela a porta. Fico pensando quem criou este lugar e qual seria o seu proposito, mas minha mente não consegue raciocinar, já devo estar enlouquecendo. Creio que Frederick, não passe desta noite, sua respiração esta pesada, e sua febre já atingiu altas temperaturas.

Caminhamos mais uma vez dentro deste traiçoeiro labirinto, a falta do calor do sol, faz-me o mais aconselhável guia, estou acostumado a viver desta maneira, porém já não temos o mesmo ritmo de quando entramos. Frederick, mal consegue andar. Eu e Antony, não queremos deixa-lo para trás, mesmo ele insistindo. Afinal de contas quem deixaria sua família para trás?

Armadilhas... Mais armadilhas... Levantei meu braço para que parassem, o fino barulho da corda se esticando me alarmou. Posso sentir o cheiro de morte nas paredes. Frederick, diante a situação, seu corpo já estava cansado, pede para que façamos uma pausa. Mesmo Antony querendo seguir o caminho, decidi ficar ali com Frederick. Antony, nunca seguiria sozinho em meio a um lugar desses.

Algumas gotas, explodem no chão, parece ser sangue. Frederick dá uma leve risada, eu posso perceber que sua respiração está cada vez mais ofegante. E logo após a risada sem dizer mais uma palavra, sua respiração para. Eu ouço o grito desesperado de Antony, rogando praga aos deuses por aquilo ter acontecido, compartilho o seu sofrimento, deixando lágrimas saírem do meu rosto. Perdemos o nosso irmão naquele momento…

[ Parte 2 ]

● Nenhum comentário nesta matéria...